Uirá Fernandes
luzes escuras
1
Luzes escuras
Frio intenso
Silêncio!
Palavras que saem
Idéias que vão
Meninas e meninos rua
Vivos nas ruas da cidade aberta
Aqui estamos nós
É para lá que vamos
Lá sabe?
Nem eu
O mistério ronda o ar
As perguntas nem vêm
Assim
também nem a dor
Todos sentados em volta
do mestre capitão
A âncora balança no ar
E o navio pára
espera
Tripulantes que somos
Tocamos o barco
e seguimos em frente
À deriva rumo ao horizonte
“Remem, remem”
A força física extrapola a mente
Não mente o que sente
Cansa
O mar balança a alma
O frio e chuva
tornam o corpo
mais apertado
luzes escuras
Já é noite
Silêncio!
2
Sabemos…
A
América do Sul virou o parque de diversão e descanso
do homem europeu.
Uma mamata!
Quem diria,
o nosso querido Che Guevara!
3
12 de setembro de 2001
surjo da poeira
e das nuvens de fumaça do
coração de Manhattan
de New York City e do Mundo
para dizer apenas Olá!
Sim estou e estamos bem
Estava lá
e tudo ruiu diante de meus olhos
o mundo caía
e não se podia fazer nada
apenas ver e sentir o quanto
às vezes
somos pequenos
Mesmo...
Mas como o dia estava lindo
decidi levar minha máquina fotográfica
para celebrar a chegada
e a beleza do outono
enquanto estivesse pedalando
Já do trem
víamos aquela fumaça
e inicialmente
pensei que fosse algo
daquelas produções americanas...
Aí quando a ficha foi caindo
eles
os grandes
e monumentais irmãos gêmeos
também
caíam de joelhos
à frente de todos
que equipados
registravam o acontecimento histórico
O mundo
e nem a cidade
serão os mesmos
e estar aqui
no dia 11 de setembro
foi uma experiência e tanto...
Manhattan pela primeira vez parou!!!
De tarde
parecia um
misto de cidade abandonada
com feriado e domingo...
E o dia estava lindo
fui para a beira do rio
tomei sol
e vi a fumaça incessante
subir
subir e tomar
conta de todos os sentidos
e explicações possíveis
do passado e do futuro...
Hoje
não trabalhei
e vou ver se
consigo jogar tênis
para aliviar o espírito...
Uirá Express Fernandes
12 de setembro de 2001
Day after – NYC
4
Um jovem pensador
I
As palavras escritas não evaporam
Elas ficam registradas
para que nem o tempo implacável
seja capaz de fazê-las dissipar-se no espaço…
Assim consumamos a história e o mundo
Por um instante
devemos sair da cadeira
Sair e sentar
sentar e sair
Este é o permanente movimento da vida
Viver
refletir e voltar a viver…
Sim e não
pois nossa essência se mantém
Porém
mudamos com o tempo e a experiência
II
Corpos se transformando
pensamentos mudando
na medida em que aprendemos sobre ética
sobre
o que é bem comum
sobre
que é etnocentrismo e preconceito
sobre
desigualdade social
sobre
o papel do Estado
Desde que o céu é azul
é assim!
Estes dias
terminam
e temos que caminhar
para ver o sol
III
Fecho os olhos
e vejo da forma que pude
Não é o tudo
e também não é o nada
São impressões
Percepções
Julgamentos
Observações e avaliações
Não são nem verdade absoluta
nem a totalidade das coisas
É preciso aprender a dosar
Viver o silêncio
e desfrutar de outros lugares no mundo
Caso precise
o vento pode ventar mais pra cá…
...assim como Bob Dylan
ventou pelo mundo inteiro!
IV
Vivemos a formação do sujeito
Transformando-se em pessoa
em gente
Aquele banho de lama no mangue
deve ter a ver com isso…
Enquanto isso
o vento pode ventar
E a calmaria
ocupa os espaços vazios
ao sujeito
há várias cadeiras possíveis a se sentar
V
Fecho os olhos
Vejo da forma que pude
Não é o tudo
e também não é o nada
Descansar
o corpo e a mente
não significa fazer nada
Caminhar
Ver o sol
na dúvida: avance
VI
Enquanto isso
o tempo
guarda o futuro e o mistério
e como ele
não nos conta
o que é o que
a nós só cabe ir vivendo
e vivendo…
Prof. Uirá Fernandes
Novembro de 2007
5
do absolutismo ao pós mundo burguês
os reis estavam no centro
divinos na Terra
absolutos no poder
a monarquia
era a forma de governo na Europa
desde a formação dos Estados nacionais
até às revoluções iniciadas no século XVII
o Estado era governado por eles
mas
era deles?
o poder era seu porque ele
o monarca
era o mais nobre de todos os nobres
passava por seu sangue
desde muito tempo
desde histórias de cavaleiro
de luxo e privilégios
fazendo acostumar
ele e o povo
de que todos estavam diante do melhor ser do mundo
como era o melhor
melhor seria ele governar
o pacto social estava feito
soberano e súditos
para ajudá-los no governo estavam os nobres
proprietários de terras
magistrados
funcionários públicos
chefes militares
conselheiros
que iam sofrendo pressões
mas iam garantindo seus privilégios
menos trabalho e a vida mais confortável
da Europa no século XVII
não pagavam tantos impostos
outros que não pagavam impostos
e tinham tantos outros privilégios
era o clero
a religião cristã
católica e protestante
tinha ainda muito poder
poder de dizer o que é Deus
e como ele é e pensa
disseram
assim
que Deus pensa
que aqueles monarcas são os melhores
são seus filhos diretos
os primeiros
os representantes Dele na Terra
e que portanto
sabem e devem governar
o povo…
o povo
era composto pelos burgueses
camponeses e operários
os primeiros eram homens de negócio
sim
negavam o ócio
seu nome era trabalho
e seu tempo era dinheiro
lucrar e acumular riqueza era o mote da vida
adeus a lei da usura!
Isso começava a fazer sentido
e a trazer um montão de poder
trabalho
acúmulo de excedentes de moedas e produtos
os produtos agora
poderiam ser chamados de mercadorias
pois
tinham valor de mercado
valor de troca
tudo podia ser trocado
traziam mercadorias de lugares distantes
produtos raros e exóticos
saborosos e distintos
úteis e necessários
transformação da vida social
o ter é poder
a história estava se tornando
a história da burguesia
a história do ter
aí voltamos àquela nossa discussão:
“la história se la escribe los vencedores”
era disso que o mundo estava diante a partir desse momento
diante
das Revoluções Inglesas XVII
Americana e Francesa XVIII
e Latino-Americanas XVIII e XIX
mais tarde
no século XX
houve uma outra Revolução
a Russa em 1917
mas esta não foi burguesa…
Essa foi daquela outra parte do povo
os operários das fábricas urbanas
e os camponeses do mundo rural…
a burguesia
dali em diante
teria que disputar
com o socialismo científico e real
com o marxismo
e os proletários soviéticos e europeus
a hegemonia do mundo
mas
o Mundo
precisava de muito mais
mesmo com tantas revoluções
foram necessárias duas grande guerras mundiais
a de 1914 e a 1939
amarga memória
do holocausto
e da bomba de hiroshima
mundo totalitário
da direita e da esquerda
mundo pós burguês
das extremas
direita e esquerda
mundo da Guerra Fria
espionagem
da tecnologia e do pensamento
EUA x URSS
essa é toda a história do século XX…
mas tudo
se transforma com a perestroika
o muro de Berlim ao chão
história
deve ser contada lentamente e calmamente
dizemos
entretanto
que a partir daquele momento
o mundo se transformou de forma acelerada e intensa
bem vindo
ao capitalismo globalizado
Este é o nosso mundo contemporâneo!
Um mundo contraditório:
jamais
pudemos conhecer tão bem a natureza
e talvez o próprio homem
jamais
houve tanta desigualdade social
e miséria no mundo
6
Que fazer com isso?
por motivos que ultrapassavam a minha autonomia de escolha
voltei da floresta do norte
empacotando
sonhos e prazeres
e assim aterrissando firmemente
na selva de pedra do sul paulistana...
enfim
estou matando um leão
a cada dia
para fazer meu
coração sobreviver!
O coração
vai saindo do dilaceramento fatal
a dor da vingança feminina!
as mulheres burguesas são mais vingativas?
O que pensas?
algo muito singular...
Sem ver e ouvir as lágrimas
se derramarem do céu!
7
Tempo demasiadamente Tempo
Não podia mais esperar.
O tempo passara demasiado lento durante os últimos tempos.
Nada por fim, se consumara, se consumira, apenas a mente lhe tragava a alma.
Acreditou que as intensas nuvens cinzentas, umidamente pesadas,
insistentemente em volta da mente, de seu pensamento,
fossem os exatos estímulos que procurava, por vezes,
equivocadamente em lugares labirínticos.
Sim, agora já não lhe restava dúvida.
Só lhe havia uma ação a tomar.
Apenas um passo a dar.
Só mais um passo.
Deixar a certeza do mundo pra atrás e, pular.
Estava na borda, ponta limite da plana montanha, dali pra frente, só abaixo.
Colocou os pés juntos, parelhos,
o vento lhe abraçava o rosto com firmeza e levava os cabelos desordenadamente para além.
Centrou o corpo no eixo, juntou os órgãos espalhados,
catou os pensamentos fugidios – como se assim pudesse ir todo junto – o todo e tudo.
Seu corpo caía lentamente.
Podia ver-se descer, atravessar as partículas doces do ar.
Ver sua massa desgovernar-se, os cabelos dançarem alegres,
os braços em busca do porto, os pés, do raso do mar.
Quanto mais próximo do solo duro chegava, maior era a certeza do que fazia.
Não, não estava a morrer, de fato. Estava apenas a caminho do centro da Terra.
“Vamo acordá, vamo acordá, ontem à noite você pediu, você pediu...”
abriu os olhos e viu as horas, o rádio cumpria sua função programática
– simplesmente tocar quando assim, lhe ordenassem.
Assim o fez por mais uma vez na vida.
Nunca conseguia lembrar de ver-se abrir os olhos pela primeira vez a cada dia.
Sim, estou acordando, os olhos abrirão em instantes
e preciso estar acordado para vê-los acordar-me.
Simplesmente os olhos se abriam e o primeiro pensamento então vinha.
Buscou mirar o céu pelo ângulo possível que se projetava da cama à janela,
procurar pelo azul claro infinito, coisa rara naqueles últimos dias.
Toda vez que abria os olhos – sem lembrar, claro – via nuvens e nuvens.
Isso era tamanha diferença.
Lembrou-se do sonho, vasculhou os pensamentos, tentou ativar os neurônios ainda adormecidos.
A memória ainda vazia.
Precisou das primeiras sinapses matinais, mas, nada.
Nadou num mar vazio de peixes. Nenhuma lembrança viera.
Lembrou, então, agora as sinapses começavam a funcionar…
que alguns diziam ser a escrita imediata do sonho a melhor forma de trazê-lo da mente adormecida à mente acordada, exato. Assim o fez.
Não podia mais esperar pela senhora lembrança, pois aí lembrou.
Lembrou que não podia mais esperar.
Em algum lugar, em algum momento não podia mais esperar...
sem esperar, então, veio-lhe descendo por avalanches mentais uma sensação de estar vivo.
Tocou-lhe o corpo tenro, e sentiu a presença ausente do vazio
que perdurava nos calcanhares.
Estava inflado, inflamado de ser algo que não havia sido.
Não procurava nas sinapses, explicações claras e lúcidas
para compor o sentido da mudança.
Mudança? Quem falou em mudança?
Perguntou aos próprios seres internos.
Sempre acreditava que suas células, neurônios, órgãos tinham pensamento próprio.
Não que fossem propriamente autônomos,
mas vez em quando,
davam por sabidos e sem demasiadas consultas,
ordenavam os rumos do seu corpo e mente.
Terminar, fechar!!
Tempo demasiadamente Tempo
8
I
Raio de sol
Desprendeu-se.
Deixou seu corpo mãe-sol para trás
e decidiu levar sua própria existência adiante.
Foi coisa de instante.
Lá estivera por anos,
produzindo energia que se irradiava infinitamente
por todo o universo.
Pois agora chegara sua vez.
Hesitou por um instante,
mas sabia que não escaparia de sua função existencial.
Decidiu por fim ir!
Descobrir os segredos do espaço,
viajar na velocidade que lhe era familiar
só pelos seus ancestrais,
iluminar e aquecer lugares antes frios e inóspitos.
II
Sua velocidade era constante,
e pelo que sabia nada viajava mais rápido que ela.
Orgulha.
Foi por isso que seu trajeto
não demorou muito a encontrar um destino.
Esse foi o tempo necessário
para aquela onda-partícula de luz
percorrer o caminho de sua fonte vital uterina
aos destinos misteriosos
que se escondiam para além da escuridão.
O espaço visto dali era algo silencioso,
não havia fim para lado qualquer,
sabia apenas que tudo girava ao redor.
A manhã nascia
lenta e suavemente
com a chegada sutil dos primeiros raios de sol.
O canto dos passarinhos anunciava à cidade
o início de mais um ciclo vital.
O dia nascia.
Pura Areia
9
Tudo ruiu!
O castelo era de areia
E eu já sabia
O santo era de barro
E eu já temia
Ela veio
como as ondas diárias
que saem do mar quando abraçam o vento
Passou por cima de mim,
Passou por dentro de mim
E agora?
Pura areia
Devastado na alma
Lágrimas na pele
O corpo é cascata incessante
De dor, temor e amor
10
O Dragão e o Corpo Santo
Durmo de olhos abertos
para ver de perto
o dragão selvagem dos sonhos
que me assustam nas noites de calor
Abro meu peito de sangue
para ver se o fogo o cicatriza
ou se as águas pesadas do céu
levam esta ferida a um estado são
Abro meu santo corpo
somente nos dias de chuva
para ver se de longe
a dor vai embora
11
O Homem e a floresta
O homem caminha quieto,
em silêncio.
As árvores escuras
ocupam o espaço
com a secura do inverno.
O sol vindo de longe,
chega tarde
e traz à floresta um cheiro vazio
traduzido na solidão dos passos
que amassam as folhas secas do outono passado.
O perigo de caminhar
afunila quando a mata se protege,
se fecha em galhos robustos e bravos
e as trilhas o obrigam,
às vezes,
a subir nos braços frágeis das árvores,
a rastejar entre raízes protuberantes
e a sentir a aspereza árida de uma terra
que já não quer viver.
O homem então pára,
coloca os pés livres
e os dedos afoitos na terra estranha,
respira, abraça as pálpebras
e mergulha em seu próprio silêncio.
Num fôlego só,
volta ao mundo
com a pedra cristalina da alma nas mãos
e olha ao redor.
Vê a natureza naturalmente viva.
É que o homem quase morria…
só ser!
Ai que sede da vida!
Pensá-la hoje
é só senti-la intensamente
Os olhos abertos,
despertos
Os neurônios
em sinapse perfeita
Os músculos não dormentes
amaciam a carne da alma…
Ai que vontade de só ser!
De respirar a vida,
tragá-la inteira,
e saciar a sede
num banho de gélidas águas montanhosas
Vontade de se abraçar
aos átomos secretos do Nada.
Existir onde não há mais espaço
para algo além da alegria.
A felicidade toma os corpos atômicos
e derrama sobre si
o líquido quente, pulsante e vermelho da luz.
12
Quero
Quero as luzes dos teus olhos
Quero o seu ser secreto
O seu ser intenso
Quero sua força corpórea
Que deixa o ar ir além…
Quero encontrar-te na escuridão viva
Do quarto interno
Da alma pulsante
Do ser protegido pelos longos caminhos consigo mesma
Quero a cor do fogo
dos densos cabelos
Quero a tua fuga doce à entrega
Quero o sabor do desafio de subir a um cume intocável.
Quero um porto macio e o ar rarefeito.
O ar raro e de efeito
Não te cobrarias nada
Pois nem a mim isso o faço
Estou leve
como quando fecho os olhos
e vejo o mar azul.
Sinto-te leve
e assim seguem as ondas
seu rumo habitual
Mistério bom de se ter no futuro aberto
Procuro nas águas claras, poucas e boas:
Respirar intenso a graça do mistério de ti
Devorar inteira a segurança segura em ti
Ver-te forte e intensa
Sentir-te assim, mulher e inteira
Tudo,
traz-me um sabor seco na boca
de uma fruta suculenta de verão
13
Sou formiga do mundo
Mergulho cabeça adentro
Rumo ao centro da Terra
em busca do magma viscoso
que escorre das mãos de Deus.
Sou formiga do mundo
Sedento pelos raios do astro supremo
Peregrino rumo a ponta última do monte
Lá onde meus dedos tocam a paciência do pássaro
Sou formiga do mundo
Suave nas ondas do mar
Contenho o ar e desço.
Devasto as entranhas secretas
de um habitat sombrio
Onde lá nas profundezas,
encontro no agitar luminoso do polvo
O silêncio voraz de uma vida
Sou formiga do mundo
14
Lentamente, afinal…
Um instante
que levaria o corpo a flutuar pelos ares
Faria-o correr ávido e leve
como se barreiras
fossem algo que não existissem
Uma energia crescente
que por fim se traduziria numa rajada de luz
Tudo dera quase certo
menos o caminho divino da bola – o gol
menos ainda o caminho humano do corpo – a integridade
Levado pela inércia
deixaria ir para longe
O sabor doce da arte
veria chegar por um tempo
O amargo frio da miséria humana
15
Humano
Um deslize suave
e o estalar instantâneo
da parte do corpo
que o sustenta
Jogaria o corpo no chão
Corpo Alma Sonhos
Os sonhos cairiam antes da dor
da própria dor da dor
Antes da mudança do corpo
a alma já escorreria lágrimas da lágrima
Um pedido aos céus
Um apoio humano
Uma vontade de rir da tragédia
Uma vontade de chorar da comédia
Uma vontade de comer da miséria
Erguer e seguir
Lentamente, afinal… seja a estrela reluzente.
16
The chair
Sob uma luz baixa,
ela,
estática como sempre estivera,
encontrava-se solitária.
Só no mundo
e o mundo ao seu redor.
As costas me davam,
não seu encosto.
Costas finas,
assim como seu pálido assento,
pernas e estruturas negras e esguias,
leveza leveza
por todos os seus cantos e esquinas.
boa pra sentar mas não para amar…
17
Travessia
Hoje prefiro a travessia
Ao mundo escuro lá fora
Hoje prefiro manter meus sonhos vivos
À jogá-los às sombras do passado.
Hoje prefiro as palavras da mão
Às que saem da boca.
Hoje prefiro o silêncio
ao constante turbilhão
que me cerca
Hoje quero ser só mais um.
Presente e vivo. Mas só mais um.
Hoje vejo que meu risco
é arriscar-me demasiado
nos desafios mundanos e miseráveis
Sinto na alma
o sangue derramar
Estou cansado desta luta
Hoje coloco a espada de lado
E sento-me no banco da paz
Mais um. Só mais um.
Distante talvez como afeto
Presente com certeza na luta diária.
Hoje não quero mais o embate
Nem de cá, nem de lá
Hoje quero dançar
conforme a música
E nem participarei das escolhas musicais…
Hoje quero
romper com o mundo e voltar.
Em silêncio, em paz.
Vivo (só) para mim.
A morte do mundo
Hoje o mundo está do avesso
Hoje o mundo é o avesso
Tudo se retoma
Se retorna ao início vazio dos significados
Não há explicações
nem perguntas a fazer
Só vertigens
É o anestesiamento temporário da alma,
Não há, por hora,
como limpar-se de tudo que escorre.
Lágrimas, lama e sangue.
Sabores salgados e amargos
para um dia de branco.
Hoje sou todo nebuloso.
Quero tirar a pele
Desmascarar, descamar, reclamar,
re-clamar ainda uma vez mais.
Ouço os ecos do silêncio.
Solidão absoluta.
Hoje meu norte é caminhar à deriva.
À margem do rio sinuoso
que deságua em qualquer foz.
Fossa
Bato na borda do mundo,
na beira do fim.
Os dedos
estão frágeis e fracos
Mas não é possível se soltar
Só esperar o sopro do vento
E o dia seguinte da Terra.
Uma palavra que venha
um verso que surja
uma poesia que se torne real!
Hoje nem um Nada me vem…